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sábado, 22 de setembro de 2012

Monólogo da Separação

[Música calma começa a tocar]
[Entrada na cena] [Música para] [Entra olhando para cima]
Há uma coisa, uma pequena coisa, que não contei para vocês. [Olha para a plateia]
Obrigado pelos aplausos mais uma vez, muito obrigado mesmo. [Fala meio disperso]
Sim, voltando, há uma coisa que não falei para vocês: A vida muda, e a minha sempre mudou e de várias formas diferentes. Na maioria das vezes foi ruim. [Olha para baixo e solta um suspiro de cansaço]
Eu não sou bom em lidar com as mudanças e elas ocorrem o tempo todo e, ás vezes, sem você perceber.
Não é que tudo na minha vida dê errado, não estou falando isso. [Esfrega os olhos] É só que eu levo muito á sério coisas ruins.
[Senta-se numa cadeira]
Com licença, mas estou muito cansado, cansado demais para conseguir por os pensamentos em ordem, mas vou tentar.
[Encurva-se para a plateia]
Ultimamente tenho feito tanta coisa num só dia. Retomei minhas aulas de teatro, sou um dos melhores alunos da turma. Tenho qualidades, muito boas por sinal, tenho defeitos, quem não os tem? [Esboça um sorriso de canto] Aprendi muita coisa nesse meio tempo e nunca vou parar de aprender, teorias e práticas, profissional e pessoal. Sou uma nova pessoa, diferente, e sempre vou ser diferente!
[Recosta-se novamente na cadeira e olha para um ponto fixo com olhar vago no meio da plateia]
Eu tenho amigos, bons amigos e os faço em todo lugar, o engraçado é que escolho as pessoas certas, divergências acontecem, mas são as pessoas certas porque fazem parte do meu caminho, imagina se não fossem? Terrível!
[Abriu um sorriso em tom de alegria]
Escrevo minhas próprias peças e todos gostam delas, algumas pessoas não concordam, mas a maioria gosta, mesmo que seja para me agradar! Que mal tem isso? Eu gosto, me sinto bem.
Sou uma pessoa boa, não desejo o mal nem da pior pessoa do mundo, nem daqueles que me fizeram sofrer.
[O sorriso se desfaz]
Nem da pessoa que me fez sofrer. [Uma rápida pausa] Sabe, de todas as mudanças que já passei nunca achei que sofreria tanto, ou melhor, não podia saber que um dia sofreria tanto.
[Outra rápida pausa]
Como se pode desejar o mal da pessoa que amou? Nem que fosse a pior pessoa do mundo, e talvez seja.
O sofrimento faz parte, as mudanças fazem parte.
Não sou triste, sou uma pessoa feliz, com altos e baixos, sou feliz. [Abre novamente um sorriso] Vocês tem que ver como as coisas estão dando certo, para mim e para as pessoas em minha volta, que felicidade!
[Vagamente vai fechando o sorriso] [Olha novamente para um ponto fixo com olhar vago]
Mas é que quando tento lembrar do passado, mesmo de uma forma boa, com felicidade do que já foi bom, eu não consigo, eu consigo entender como, não consigo entender por que.
O sofrimento me ensinou a ser mais feliz, mas não me ensinou a esquecer.
[Fecham-se as cortinas]

domingo, 19 de setembro de 2010

Deus no futebol

Eles chegaram ao colégio, o neto e seu avô juntos, passeando sem a ajuda de seus pais, exatamente como faziam antigamente, na cidade, no dia das crianças. Porém no colégio eles estavam, eles queriam estar. O neto acompanhou o avô, que com certa idade tinha dificuldades para andar, levou-o até a quadra onde de lá veria seu neto jogar.
- Estou torcendo por você - a idade não o deixava gritar muito alto, mas seu neto ouviu, sentiu.
- Obrigado! Vou ganhar pra você!
Não tinha habilidades para ganhar, não era o principal, mas estava ali, tinha aquilo ali naquela hora.
- Aquele ali é meu avô - os companheiros de time precisavam saber, aquela vergonha não existia, e isso enriqueceu a alma de seu avô, e começou a sorrir mais ainda.
O jogo começou e sua garra estava fazendo o time avançar, ocupava o jogo e a quadra totalmente e seu avô torcia. A bola então foi deixada sem querer no meio da quadra, e entre dois jogadores lá foi seu neto, escorregou a bola pra frente.
- Mostra pra eles! Você pode, pode sim! - a voz de seu avô tinha se normalizado.
O goleiro que vinha em sua direção recuou o corpo pra trás, e o chute foi decisivo.
Procurou sua namorada, deu um beijo nela, procurou seus companheiros de time e os agradeceu.
Olhou para cima.
- Pra você....

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Rio - Caxambu

Saciava sua fome com um biscoito de pacote que carregava na mochila enquanto ainda estava esperando um ônibus, mas não demorou muito para que ele chegasse. Entrou desordenado, colocou o dinheiro separado do bolso na mão do trocador que tinha um olhar cansando, sem importância. Olhou em seguida para as pessoas, pareciam ter suas vidas esmagadas por um peso tão cruel que o mesmo, por pura maldade, deixou-as vivas. O único banco vazio se encontrava no final do ônibus, onde uma senhora estava sentada ao lado. Sumiu do mundo enquanto o ônibus andava, imaginava reencontros, um chegada rápida e uma volta acompanhada, imaginava sua casa com mais um integrante, imaginava sua vida transformada, imaginava sempre o melhor, o positivo. Ninguém tinha lhe contado a verdade sobre a crueldade do mundo. Na verdade já tinham falado de histórias, cuidados e atenções que deveria tomar, mas para ele eram apenas os vilões de sempre que poderiam ser derrotados com um herói qualquer, podia ter quinze anos, mas sua inocência era tão pura que seu rosto só liberava dez anos de vida.
Percebeu a senhora, a que estava ao seu lado, era a única ali que parecia estar sorrindo constantemente sem precisa de motivo ou, pelo menos, nenhum motivo que ali se encontrava.
- Com licença, você conhece a cidade de Arabutã?
- Arabutã filho? Não conheço não... Onde fica?
- Não sei, queria saber, preciso ir pra lá.
- Desculpe filho, não sei.
- Obrigado mesmo assim.
Voltaram os dois aos seus estados anteriores, mas a conversa foi retomada não durou muito tempo.
- Você sabe onde fica a rodoviária?
- Sim, eu estou indo para lá, vou te levar, tudo bem?
- Sim! - Teve um motivo a mais para sorrir, aparentemente estava tudo dando certo - Muito Obrigado senhora.
Seu estilo simples de falar comoveu o menino, era uma pessoa tão doce em suas palavras, sua expressão e no seu olhar.
- Vou voltar para meu marido em Minas Gerais, vinte anos que não o vejo.
Enfim, estava explicada a sua felicidade constante e sua esperança comovia o menino.
- Que bom! Eu também vou encontrar uma pessoa em Arabutã.
- Parece ser uma pessoa muito importante para você, está muito entusiasmado. - A conversa animada não parou.
- Estou sim! Não espero a hora de chegar até essa cidade!
- Guarde a euforia para o reencontro!
Os dois ficaram conversando sobre tudo o que poderiam imaginar, sobre os desejos, sonhos, habilidades e a vida.
Chegaram então à rodoviária, aonde saltaram e andaram até sua entrada principal.
- Aqui estamos, amiguinho.
- Obrigado e boa sorte!
- Mas onde está sua mãe?
- Não, não, vou ver minha irmã.
- Onde ela está?
- Em Arabutã.
- Com quem você vai? Sua mãe, seu pai?
- Ninguém.
Ela ficou em estado de pânico, sem saber o que fazer, sem saber o que falar.
- Como pretende chegar a essa cidade, amiguinho?
- Vou pegar um ônibus, não tem outro jeito. Preciso ver minha irmã, ela não pode ficar sem mim!
Estava começando a ficar desesperado ao perceber o olhar estatelado da mulher.
- Não! Seus pais sabem?
- Eu não tenho pais. Só temos eu e minha irmã.
Suas palavras foram frias e sem coração o que deixaria qualquer um triste.
- Você não me falou isso! Como irei te ajudar?
- Não precisa se preocupar, seu marido te aguarda.
- Deixe eu te levar até lá! Vamos comigo!
- Não se preocupe, eu pego um ônibus qualquer que vá para Arabutã.
- Deixe que eu te leve, vamos comigo até Caxambu, eu e meu marido te levamos até sua irmã.
Um desvio na sua viagem poderia ser a queda, poderia dar tudo errado, mas ele não sabia para onde estava indo, poderia se perder, poderia não chegar lá, talvez com a ajuda de uma pessoa mais velha ele conseguisse. Tudo isso passou tão rápido por sua cabeça que a resposta foi na mesma velocidade.
- Tudo bem.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Rio - Arabutã

Saiu de casa em uma noite quente, o ar da cidade estava sendo consumido pelos prédios. Parecia uma formiga diante do mundo. Colocou a mão nos cabelos, olhou para baixo e deixou sua mão cair. Ora como é o mundo, ora como é sua vida. Passava o tempo, ele esperava em frente ao prédio, esperava algo. Talvez idéias, talvez alguém. Os dois. Sua mochila de marca mostrava sua vida transformada, seu corpo na calçada mostrava mais uma mudança que chegava.
A primeira idéia veio à cabeça, a mais fácil por sinal, ir até uma rodoviária e pegar um ônibus que chegue até Arabutã. Então começou a andar. Andou, e depois de um bom tempo andando, parou, olhou para os lados, estava no Largo do Machado, já tinha andando o suficiente, mas ainda não sabia como chegar à rodoviária, deu uma espiada na rua e viu um homem no balcão de uma farmácia de esquina. Entrou na farmácia, olhou para os lados, demorou um tempo, pegou um creme dental, observou e colocou de volta na prateleira.
- Posso ajudar?
- Não, obrigado, só estou olhando.
Rodou duas vezes a farmácia, criando coragem e tentando se convencer que isso daria certo. Fitou o homem no balcão, chegou perto, fez um gesto com a boca e após soltar o ar resolver soltar as palavras.
- Eu queria... Bem... Queria saber onde fica a rodoviária... Digo, daqui, qual ônibus pego?
A expressão do homem demonstrou certa duvida, olhou para a rua, tentou lembrar-se de alguma coisa e arregalou os olhos. Ele lembrou.
- A Novo Rio?
- Acho que é.
- Bom, se for a Novo Rio você atravessa essa rua e pega naquele ponto ali em frente o um, sete, zero, mas também pode ser o um, sete, oito... - Apontava para a rua principal da esquina da farmácia, mostrando um ponto de ônibus em frente a uma galeria. - Ele para na rodoviária.
Olhou para o ponto, virou para o homem, agradeceu e voltou a andar, mas foi surpreendido.
- Tome cuidado por aqui. Tem muito pivete andando aí na rua, principalmente essa hora da noite.
- Pode deixar.
Continuou com alguns passos.
- Quantos anos você tem?
- Quinze. - Sorriu por educação. Estava com muita pressa e já estava andando novamente.
- Vai encontrar com sua mãe?
Ele parou, olhou fundo para o nada, a coragem começou a subir por sua veia. Ele sorriu e sem olhar para trás, respondeu.
- Vou encontrar minha irmã.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Arabutã

Quando a tarde chegava para alimentar a saudade de dias sem ver a pessoa que o fazia feliz ele chorava. Chorava para vê-la, chorava quando não podia toca-la e se emocionava quando chegava essa hora. Toda terça era o dia dele visitar sua querida irmã. A única pessoa que dava seu devido valor era ela, sem pai, sem mãe, abandonados no mundo. Ele era adotado, ela ainda estava na adoção. Pedia para seus pais, toda semana, para leva-lo ao encontro dela. Explicava ao seus pais, com a esperança que eles poderiam adota-la também. Mas não faziam, e ele não sabia o motivo.
E exatamente na 46ª terça em que ele foi visita-la teve a surpresa mais desagradável do mundo. Ela não estava lá, foi adotada. Entrou em desespero, deprimiu-se, rebelou-se, falou com seus pais e eles nada puderam fazer, apenas descobriram que ela fora morar com alguém em um lugar bem longe dali, daquela cidade, aquela cidade aonde ele não queria mais estar. Queria fugir, ir atrás da irmã, o nome da cidade estava em sua cabeça, o nome estava lá. Sem saber exatamente aonde estava e nem para aonde ir, numa noite quente, resolveu fugir para encontrar sua irmã. Tudo que sabia era aonde estava e para aonde precisava ir, mas não sabia como, e nem aonde era aquele lugar, que pelo nome, parecia uma cidade do interior de algum lugar, aonde as pessoas pareciam viver na paz.
A primeira coisa que fez foi sair de casa, com uma mochila que tinha um pouco de roupa, que ele considerava necessário, um bolinho de dinheiro, que tinha juntado com a mesada, pacotes de biscoito, um livro e outros aparatos pessoais.
Era um garoto de 15 anos atrás da irmã de 9 anos. Aonde ele poderia chegar? Até o fim.
O destino era a cidade de Arabutã.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Pesadelo

Olhei para cima, vi um teto branco com pedaços de madeira velha caindo em algumas partes, levantei um pouco a cabeça e logo desisti, estava completamente imóvel, não consegui suportar a dor de tentar levantar os pés, desisti novamente. Estava em um corredor, olhando para o lado só consegui ver uma porta branca com um espaço em cima de vidro para olharmos por ela. Resolvi gritar, mas minha voz não saia. Depois de tanto sufoco, veio alguém até mim, ele estava de branco e dizia várias coisas, mas não entendia nada.
Quando pude ouvir novamente, ele chamava meu nome.
-Thadeu?
-O que aconteceu?
-Vai ser difícil você voltar, mas vamos te ajudar.
Voltei a não entender mais o que estava se passando, resolvi ignorar e pensei que aquele médico poderia me ajudar. Ele me levou para um sala, aonde várias pessoas olhavam para mim assustadas, uma delas gritou, era uma mulher, ela chorava e corria em minha direcção e falava muitas coisas chorando, só pude ouvir seu choro.
Logo em seguida uma garota veio com o rosto pálido, assustada, segurando o choro.
-Thadeu, você me reconhece?
-Desculpe.
Ela começava a chorar, junto com outras pessoas ao fundo. Não sabia quem eram eles, mas eles pareciam ter algum significado forte na minha vida. A única pessoa que reconheci foi um homem idoso que estava sentado no canto de cabeça baixa lamentando, era meu avô. Gritei seu nome, ele olhou para uma das pessoas e depois olhou para mim, tentei estender a mão. Ele, com dificuldade, levantou-se correndo, tentou falar várias coisas e eu só entendia uma palavra que ele nem estava falando. Foi aí que percebi que faltava alguém ali. Estava faltando uma parte, uma parte importante, mas eu não me lembrava, apenas esqueci.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Idealizando um sonho (Parte 1)

Na maioria das vezes que Jorge abria seu sorriso sincero o mundo se transformava, parecia que tudo ficava mais bonito, mais brilhante. Era, sim, uma pessoa encantadora, mas nesse encanto todo só tinha um pequeno problema: Jorge era paraplégico. Não que isso fosse um problema para ele, mas o fim de um sonho, um sonho que a vida toda depois daquele acidente de carro ele tentou buscar.
Jorge era apaixonado por Surfe, mas depois do acidente ainda quando era jovem não pôde mais surfar, agora com setenta anos de idade a única coisa que o incomodava era o fato de não poder mais realizar esse sonho.
--- Sinto muito, mas infelizmente é irreversível o seu estado. --- O médico tentou ser a pessoa menos grosseira do mundo.
Jorge apagou seu singelo sorriso e, com a ajuda das duas mãos, movimentou a cadeira de rodas para trás, se esquivou do médico e saiu do consultório. "Como poderia ser irreversível?" Pensou.
Voltava para casa, movimentando ele mesmo a cadeira de rodas, quando um senhor alto de olhos castanhos escuros e com terno cinza de gravata borboleta o parou.
--- O senhor poderia me dar uma informação?
--- Claro! --- Voltou a abrir seu sorriso --- Pode falar.
--- Bom senhor, eu gostaria de saber se o sonhar deseja concertar isso tudo. --- O homem falava sério e se mostrava convincente.
--- Como assim? --- A dúvida começou a persegui-lo.
--- O senhor gostaria de fazer uma viagem? --- Um sorriso bobo apareceu na face desse homem.
--- Eu não estou entendendo, é um assalto? --- Espantou-se.
--- Não senhor, claro que não. --- Soltou um pequeno riso --- Gostaria de voltar no tempo?
Jorge riu.
--- Claro, só se for agora! --- Ironizou.
--- Muito obrigado pela informação.
Enquanto o homem saia andando, tomando de volta seu rumo, Jorge balançava e cabeça e ria em tom irónico. "Só maluco!"
Enquanto atravessava o sinal para chegar enfim a sua residência, um carro vinha em alta velocidade ao longe, ele chegou perto tão rapidamente que não deu tempo de Jorge notar a presença dele ali. Jorge foi atropelado, jogado de sua cadeira de rodas as longe. Desmaiou.
 
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