sábado, 8 de maio de 2010

Monólogo da Depressão

[Entrada na cena]
Muito obrigado pelos aplausos, muito obrigado. [Tom Tímido]
É muito importante para mim estar aqui hoje, porque afinal vocês são meu primeiro público de verdade. Devo somente avisá-los que não sou bom ator, fui eu que escrevi essa peça e, sejamos sinceros, não sou bom autor também.
Não estou aqui para encenar uma apresentação longa, nem tão curta. O palco está vazio para representar a história que vou lhe contar em resumos, a história da minha vida. Deixe-me começar rapidamente pelo curso de teatro que eu fiz, um amigo meu me disse que esse tipo de peça tem um nome esquisito, mas que faz sentido, se não me engano é um Monólogo, o problema é que quando eu ouvi falar desse tipo de peça [Abaixa a cabeça e começa o tom depressivo] eu fiquei com receio, porque nunca fui bom em ser o centro das atenções, em ser o único para quem todos olham, nunca fui e ainda não sou.
Eu sempre quis ser ator e autor também, escrever minhas próprias peças, encená-las, sempre foi um sonho, mas sempre foi também um pesadelo. Quando criança imaginava o mundo todo olhando para mim em uma tela de cinema, mas infelizmente não tinha o dom de ser olhado. A primeira garota de quem gostei parecia também gostar de mim, eu era criança e quando me esqueci dela... Bom, eu achava que qualquer garota de quem eu gostasse poderia também gostar de mim, o engano foi o bastante para aprender que o final nem sempre é feliz, ou melhor, quase nunca. Também não sou bom em amar.
[Senta-se em uma cadeira]
A escola me trouxe momentos felizes e momentos tristes, mas sempre que eu me lembro dos momentos felizes de antigamente eu fico triste, só me sobra então momentos tristes. A escola era a razão de sair daquele lugar muito rápido, desculpe, não a escola, as pessoas de lá. Meus amigos estavam longe, meus colegas... Quem precisa de inimigos?
Graças a Deus isso mudou nos anos que antecederam o vestibular, fiz amigos, fiz sim![Sorri por um momento, mas imediatamente fica triste] Devo aproveitar para dizer também que não sou bom amigo, aliás, não os tenho mais, e os que eram distantes se distanciaram mais ainda. Quanto tempo leva o sonho? Três, cinco ou dez segundos? Para mim levam horas... Meses... Anos...
Não passei no vestibular, [Riso Irônico] você deve saber por que, entrei para um curso de teatro, não consegui manter, tive então aulas particulares e me deram essa oportunidade de mostrar meu talento.
Infelizmente [Abaixa novamente a cabeça] não estou mostrando-lhes nada.
Não tenho o que mostrar.
[Apagam-se as luzes]

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Engenharia Civil

Acabou, finalmente.
A consequência é o alívio
Mas não o bastante,
A guerra não acabou,
acabou apenas uma batalha
que, apesar de derrotado,
estou satisfeito de ter acabado.

Sabe o que é pior?
Não estou falando de amor,
Muito menos de amizade.
Se você é um professor,
Sabe a minha realidade.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Preservativo

Um amigo meu sempre me diz que não se preocupa com o que não é seu. Ele diz que sua vida, apenas ela, já é um tanto quanto intensa para ele entrar nas outras.
- Como você lida com isso? É tão chato!
Ele olhou para mim, levantou as duas sobrancelhas, deu um sorriso meia boca e recostou-se na cadeira.
- Amigo, não sabia que fosse se preocupar com o que não é seu. Para não ter problemas e não se meter neles apenas fique quieto. Sua vida é difícil, eu sei, pois bem, junte-se a mim.
Pegou em cima da mesa um jornal, abriu-o na parte de esportes e relaxou ainda mais. Imaginei até que se tivesse com um cachimbo ficaria mais interessante. Sua proposta era irrecusável.
- A minha preocupação é, na verdade, se vamos ganhar amanhã.
Abaixei a cabeça, refleti um pouco. Pensei no amanhã, nos meus afazeres, nos trabalhos, nas vitórias, nos sonhos.
- Sim, nós vamos.

domingo, 18 de abril de 2010

Contrariando Fernando Pessoa

"Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração."

          
Não

terça-feira, 13 de abril de 2010

Cheguei a achar engraçado

Se esse é o único meio
posso lhe falar
não sou dono da verdade
não acho nada,
não sou nada.
Não quero que se armem,
não quero começar a guerrilha,
mas ela já começou,
e não foi culpa minha.
Eu debati,
mas não foi um debate.
Não houve resposta.
Não estou em combate.
E principalmente:
Não quero que me mate.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Perguntas ao Bom

Pera aí!
Você veio aqui,
Para me sufocar?
Ou para me ajudar?
Ainda não entendi...

sábado, 3 de abril de 2010

Meus oito anos - Casimiro de Abreu

Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais

Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
A sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais.

Como são belos os dias
Do despontar da existência
Respira a alma inocência,
Como perfume a flor;

O mar é lago sereno,
O céu um manto azulado,
O mundo um sonho dourado,
A vida um hino de amor !

Que auroras, que sol, que vida
Que noites de melodia,
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar

O céu bordado de estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !

Oh dias de minha infância,
Oh meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã

Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delicias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha, irmã !

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Pés descalços, braços nus,
Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas
Brincava beira do mar!

Rezava as Ave Marias,
Achava o céu sempre lindo
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar !

Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da, minha infância querida
Que os anos não trazem mais

Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras,
A sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
 
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